Por que a Skoda mantém MQ, DQ e AQ: manuais, dupla embreagem e conversor de torque

Skoda e suas transmissões: MQ, DQ e AQ em mercados globais
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Entenda como a Skoda usa transmissões MQ manuais, DQ de dupla embreagem e AQ com conversor de torque em diferentes mercados, da Europa ao calor da Índia.

No universo de carros a combustão da Skoda, três tipos de transmissões dividem o trabalho de forma discreta. Em alguns mercados, contam mais o conforto e o baixo consumo; em outros, o essencial é resistir ao calor extremo e a engarrafamentos intermináveis; e há quem ainda valorize o ato de trocar marchas por conta própria. Por isso a marca leva adiante três conceitos em paralelo: as caixas manuais MQ, as automáticas de dupla embreagem DQ e as automáticas com conversor de torque AQ.

Internamente, a Skoda chama as manuais de MQ, as de dupla embreagem de DQ e as hidrodinâmicas de AQ. Nem toda opção aparece em todos os modelos ou mercados. O chefe de desenvolvimento de transmissões, Milan Litoborsky, ressalta que é praticamente impossível criar uma caixa que funcione igualmente bem em qualquer lugar do mundo; por isso, a estratégia deliberada é cobrir diferentes usos com soluções distintas. Ele também frisa que, apesar do avanço da eletrificação, todos os tipos de transmissão para veículos a combustão ainda têm um longo caminho pela frente, na Europa e fora dela.

A caixa manual segue como a peça mais tradicional do quebra-cabeça. A Skoda acumula décadas de experiência com as séries MQ, como MQ200 e MQ100/SQ100, produzidas em Mladá Boleslav desde 2000. Até 2021, mais de oito milhões de unidades MQ200 saíram da linha, com picos de aproximadamente 1.900 caixas por dia em alguns anos. O apelo é conhecido: engenharia relativamente simples, custo menor e um vínculo mais direto entre motorista e carro, especialmente quando a condução ganha um tom mais animado.

Litoborsky costuma dizer, em essência, que o cérebro de uma transmissão manual é o próprio condutor. É ele quem escolhe quando e como trocar de marcha e quem pode levar o conjunto a seus limites mecânicos. Um motorista habilidoso consegue sair em rampa com suavidade ou rebocar um trailer pesado usando a embreagem com critério — ainda que o desgaste seja inevitável com o tempo. Os engenheiros observam que, do ponto de vista puramente mecânico, as manuais já se aproximam do teto de desenvolvimento; ganhos adicionais dependem sobretudo de novos materiais, processos produtivos mais precisos e lubrificantes melhores.

O cenário industrial ao redor, porém, está mudando. Segundo relatos sindicais e da imprensa local, a Skoda começará a descontinuar a produção da MQ200 em 2025, após cerca de um quarto de século. Em 2024, a empresa fabricou mais de um milhão de transmissões no total, incluindo cerca de 355 mil MQ200 e aproximadamente 711 mil DQ200 de dupla embreagem. Com o fim da MQ200, espera-se que os modelos europeus a combustão da Skoda passem a ser oferecidos apenas com caixas automáticas, enquanto parte dos funcionários que atuavam nas linhas de manuais migra para a produção de componentes de propulsão elétrica.

Do outro lado da balança estão as automáticas. São mais complexas — e, por consequência, mais caras —, mas recompensam com operação fácil e desempenho consistente. Além de evitar muitos erros de uso comuns nas trocas de marcha, se integram melhor a sistemas avançados de assistência ao motorista, que exigem controle eletrônico preciso do trem de força.

Entre as automáticas da Skoda, a família DQ de dupla embreagem é a mais presente na Europa. A DQ200 de sete marchas, uma DSG de embreagem seca para motores de até cerca de 250 newton-metros, é montada na fábrica de Vrchlabí. Antes de chegar à linha, essa transmissão passou por cerca de 60.000 horas de testes em bancada e algo como dois milhões de quilômetros de validação em condições exigentes. O conceito usa dois eixos de entrada — um para as marchas ímpares e outro para as pares — e duas embreagens que permitem pré-selecionar o próximo estágio. Com isso, as trocas podem ocorrer em frações de segundo.

No uso diário, isso se traduz em mudanças muito rápidas e, ao mesmo tempo, suaves. A calibração pode ser tão precisa que o motorista mal percebe a variação no movimento do carro e nota principalmente a alteração do giro do motor. Esse fluxo contínuo de força favorece a eficiência do conjunto e ajuda a reduzir consumo e emissões de CO₂. Não surpreende que a DQ200 esteja hoje em muitos modelos da Skoda e também em uma ampla gama de Volkswagen, Audi e SEAT: mais de três milhões de unidades já foram produzidas, superando 700 mil em um único ano recente.

Há, claro, limites. Por trabalhar com embreagens a seco, sem banho de óleo, a DQ200 pode ser mais exigida em climas extremamente quentes e úmidos, e em tráfego muito intenso de para-e-anda. Para regiões onde isso é rotina, a marca parte para outra receita.

Ela recorre então às automáticas AQ com conversor de torque. Em vez de embreagens de fricção, usam um conversor hidrodinâmico — em que o óleo transfere a força entre a bomba e a turbina —, combinado a trens planetários para variar as relações. Litoborsky aponta que esse arranjo é o mais indicado para lugares com temperaturas extremas, alta umidade e congestionamentos em que os carros avançam a passos de tartaruga por horas. Na comparação com certas partes do mundo, ele observa que a Europa quase não conhece um engarrafamento de verdade.

A Índia é um exemplo claro. Os Skoda Kushaq e Slavia desenvolvidos localmente, junto com os Volkswagen Taigun e Virtus, hoje combinam o motor 1.0 TSI a uma automática de conversor de torque de seis marchas. A imprensa automotiva indiana informa que, a partir de 2026, esses modelos devem migrar para uma nova AQ300 de oito marchas fornecida pela Aisin. As relações adicionais visam manter o motor em uma faixa de funcionamento mais eficiente e ajudar Skoda e Volkswagen a cumprir metas indianas cada vez mais rígidas de CAFE, preservando a robustez típica do conversor de torque no calor urbano e no trânsito travado.

Em paralelo, o mix de produtos da Skoda está mudando. Números da empresa e relatos independentes indicam que a fatia de modelos eletrificados — elétricos a bateria e híbridos plug-in — subiu de cerca de 9,4% para algo em torno de 23% em um ano. As encomendas de SUVs elétricos como Enyaq e Elroq já passam de 120 mil carros. À medida que a marca investe mais em plataformas elétricas, parte da equipe de transmissões migra das caixas manuais para componentes de e-drives.

Colocando tudo na mesma pista, dá para entender por que a Skoda fala em um futuro longo para os três tipos de transmissão enquanto reorganiza suas fábricas. As manuais como a MQ200 recuam gradualmente na Europa, mas seguem no panorama global; as DQ, como a DQ200, se especializam em unir conforto e eficiência em muitos mercados; e as AQ com conversor de torque ficam reservadas aos climas mais severos e ao trânsito mais hostil. Em vez de perseguir uma solução universal, a Skoda reparte as tarefas entre tecnologias — e deixa cada caixa fazer o que sabe melhor.

Allen Garwin

2025, Dez 11 23:39